COMO DAR ADEUS A MELODIA

Por Adalto Alves | 25 de agosto de 2017

Luiz Melodia morreu na sexta-feira. No sábado, ouvi seu último disco, Zerima. Lançado pela Som Livre em 2014. Produzido por Líber Gadelha e Humberto Araújo. Na capa, Luiz Melodia expõe a pele preta, num close em que mira nos olhos. Sem subterfúgio, falsidade, mentira. Este sou eu, parece dizer. Do jeito que eu sou.

Parecia velho. Testa enrugada, grandes olheiras, cavanhaque branco. No encarte, perfila a elegância despojada do malandro. No disco, desfila o poeta. O compositor, antes de mais nada. Luiz Melodia põe assinatura em nove das 14 faixas. Quatro em parceria. Cinco sozinho. Depois, vem o cantor inimitavelmente sedutor.

Pensei, Zerima é um testamento. Não apenas porque encerra uma discografia pequena. Modesta em números, não em talento e competência. Foram 13 discos desde 1973. Pérola Negra, o primeiro, continua comovente. Zerima, por sua vez, é uma despedida um tanto quanto premeditada. Viajo com os meus botões.

Esse nome, de onde vem? Anagrama de Marize, irmã de Luiz Melodia, que morreu em 2011. Ele brinca de chamá-la de uma flor no deserto da África. Ponto de cor e perfume no meio do nada. A faixa título, dividindo o disco, é a sétima. Canção de dor, emotiva, que Luiz Melodia transforma em carícia. Saudade sem o drama da perda.

Zerima começa com charme e suingue, em Cheia de Graça. O cantor pede para não ser abandonado, no sapatinho. Dor de Carnaval, com Céu, lamenta a escola que perdeu o passo na passarela do samba. Vou com Você, outra face da moeda, revela o amado que não deixa a amada ir embora. As desavenças são motivos de graça.

Caindo de Bêbado mostra o sujeito flanando pelo Rio de Janeiro, embriagado de sentimento. Nova Era, de Dona Ivone Lara, declara esperança no futuro. Do Coração de Um Homem Bom sugere a carta na manga do crooner. Cura é um bom momento para prestar atenção em todo mundo que toca com Luiz Melodia. Categoria.

Sonho Real traz o blues para a boca de cena. Leros e Leros e Boletos, belíssima, de Sérgio Sampaio, irresistível, afirma: “vou me fazer de eterno no meu encontro com Deus”. Papai do Céu tripudia sobre a eterna crise brasileira. Maracangalha, de Dorival Caymmi, apresenta Mahal Reis, filho de Luiz Melodia, o rapper que detém o bastão.

Moça Bonita, de Jane Reis, dá uma balançada no sincretismo. Amusicadonicholas, tudo junto, é instrumental. A última faixa do último disco não tem a voz do artista. Ausência anunciada. Luiz Melodia virou música.